#AnittaIsOverParty: O enterro pop da Anitta

Não importa o quanto seu exército seja pesado e tenha poder! O desmonte de todo um capital reputacional, construído através de anos de trabalho, pode ser bem rápido. Capítulo de hoje: Anitta.

 

Recebi, na última quarta-feira (19), o convite pro “enterro” de Anitta na cena pop. Com o subtítulo “descanse em paz, ativista de telão!”, apoiado por uma imagem onde um caixão com seu nome é carregado por ninguém menos do que Rita Lee, Pitty, Iza e Pabllo Vittar, o evento do Facebook já carrega milhares de confirmações e é uma reação ao episódio ocorrido no mesmo dia, quando Anitta recusou se declarar contra a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República – não aderindo à campanha #EleNão, impulsionada com a ajuda de mulheres, LGBTs e negros. Memes (inúmeros) à parte, o negócio é o seguinte: Anitta não só se queimou nessa história, como também deve ter deixado seus assessores de comunicação com os cabelos em pé! Afinal, quem quer ser a nova Cláudia Milk, né mesmo?

 

Pra entender um pouco mais desse processo e ver se a era flop de fato chega pra todas, jogamos as “cartas” desse baralho enorme que é a mineração de dados e observamos um pouco do que foi o comportamento em rede durante este momento – um monumento civilizatório da internet brasileira, diga-se!

 

Antes de mais nada, o primeiro fator a observar é que, como disse acima, Anitta vem ostentando, ao longo dos últimos anos, um verdadeiro exército em prol de seus passos. A legião de fãs, tropa de altíssima patente, é responsável por enxamear e viralizar, através das redes, um sem número de conteúdos da cantora. São eles que fazem campanha pra engajar vídeo clipes, singles e featurings; que defendem Anitta em questões polêmicas relacionadas à sua vida pessoal; que comemoram pelas diversas aparições da artista em programas de televisão ou mesmo por sua catapultagem ao estrelato internacional; que consomem as diversas marcas pras quais a cantora empresta seu belíssimo rostinho plastificado e, é claro; são eles que, atraídos por discursos pró-diversidade, transformam Anitta na figura que hoje ela é.

 

 

O que surpreende, no entanto, é notar que, como qualquer exército sem um comandante coerente em termos de discurso, há um “racha” na tropa de Anitta. Se olharmos para o grafo, veremos que o maior grupo presente – de cor rosa e com 28,47% das interações nas redes – é formado (pasme ou não) por LGBTs, fãs e páginas ligadas à cantora, que ajudaram a avolumar ainda mais, com seus retweets, as críticas ao discurso de negação da política que Anitta tomou como justificativa pra não descer de cima do muro. Sim, a mesma Anitta que se diz feminista, que canta em Paradas do Orgulho LGBT e que vive se apropriando de jargões típicos do “Vale dos Homossexuais”, como “mana” e “bafo”. Os formadores deste cluster impulsionaram a hashtag #AnittaIsOverParty, originada do grupo de Facebook “LGBTS Contra Bolsonaro”, o que por si só já explica a tendência do cluster a uma inclinação de perfil mais ativista. Entre os principais influenciadores do grupo, estão os usuários @thiagohalima, @destructocomet, @joaodoceu e a página @bchartsnet, que não só apontaram as contradições do discurso da cantora de querer se ater à sua profissão e não se associar a um posicionamento político, como também capricharam nas comparações com outras divas pop que não se limitam a soltar o gogó e bater o cabelo – a exemplo de

 

Pabllo Vittar, Beyoncé, Katy Perry e até mesmo Ludmilla. Destaque também para as comparações com Rachel Sheherazade, jornalista mais à direita que, ainda assim, se uniu ao grito do #EleNão; e à Anitta se dizer “parte” da comunidade LGBTQ (afinal, Anitta nera hétero?).

 

O segundo cluster,de cor verde e com 19,99% das interações, tem basicamente a página da própria cantora como principal eixo influenciador. Apesar dos tweets feitos por Anitta em própria defesa, o cluster também é atravessado por uma grande incidência de memes sobre o “ativismo de telão” e o “pink money” dos quais Anitta teria supostamente se aproveitado nos últimos anos. Aqui, no entanto, já surge uma hashtag em apoio à cantora: #ForçaAnitta.

 

É curioso, também, notar o timing – através do gráfico de tweets por minuto – de entrada, no debate, de usuários mais ligados à direita. É um termômetro interessante pra avaliarmos não somente como aconteceu a dinâmica das postagens, mas também entender o sucesso da hashtag #AnittaIsOverParty no pressionamento e na desestabilização da imagem de Anitta, e mesmo em relação às hashtags em defesa da artista.

 


Nos dados há uma falha, pois a internet estava um cocô e caiu bem na hora. 😀

  

É neste aspecto que surgem perfis comumente não muito próximos da cantora, mas que se opuseram a toda uma movimentação de cobrança e de questionamento provocada pelos perfis anti-Bolsonaro. Impulsionado pela agitação de páginas como o @MBLivre, ou usuários como @odiodobem2, @AnaPaulaVolei e @DaniloGentili, o terceiro cluster se materializa como um lugar político mais à direita, de defesa à Anitta, e que não está originalmente vinculado, de maneira necessária, à artista. Eles reivindicam a liberdade (e o direito) de Anitta escolher por expressar ou não seu voto, atacando também o feminismo e se opondo ao politicamente correto.

 

O grupo cinza, mais pela tangente, é formado por usuários que criaram tweets com sacadas sobre a situação e por @s famosas, como o youtuber Cauê Moura, os influenciadores Carol Rocha (a.k.a Tchulim) e o Gabe Simas.

 

O cluster laranja, com 7,09%, é feito de interações capitaneadas por jornalistas e mídias de esquerda, como o William De Lucca, do Brasil 247, o youtuber gay Pedro HMC, do canal Põe na Roda, o perfil humorístico Dilma Bolada, o youtuber Raony Phillips, criador do Girls In The House, e a vereadora de Niterói (e candidata a deputada federal) Taliria Petrone.

 

O grupo roxo, apesar de ter apenas 3,19% dos usuários, foi fundamental para para o desenvolvimento da discussão, pois possui na sua base grandes fandoms da artista, como as @s CentralAnittaBR e ProjetoAnittaBR. Na discussão eles (também) serviram de base para o questionamento à postura da artista.

 

 

Quando observada a divisão dos outros clusters, foi percebida uma quantidade relevante de conteúdo em referência a k-pop, argumentando que esses artistas aceitam a diversidade e amam os fandoms (rolou um shade, né não?).

 

 

Grupos mais dispersos e difusos representam o restante da porcentagem de interações, não sendo tão ligados à cantora, mas repercutindo, ainda assim, a “morte” de Anitta através de memes. Anitta, tão bem-sucedida, é, por mais contraditório que isso possa soar, unanimidade de um fracasso do discurso.


Ao entrar naquilo que as teorias da comunicação chamam de “espiral do silêncio”, omitindo a própria opinião por receio de isolamento, crítica, perda de receita ou mesmo linchamento, Anitta se ausentou e negou sua própria essência estética (e por que não ética?) – de garota do subúrbio, a favor de bandeiras políticas como o funk, o empoderamento feminino, contra LGBTfobia, racismo e afins. Anitta já não parece mais nada, além do vazio de uma imagem que se pretendia “espelho”, “representante”, “parte” de algo que agora nega. De nada adianta tamanho investimento na construção de uma imagem e uma reputação, se não há posicionamento e discurso coerentes. Anitta sai do Olimpo do pop pra figurar entre os cases fracassados de “marketing de causa” e gerenciamento de crise de imagem. Sem a mínima noção de que se o pop não se politizar, tão logo ele vai afundar numa estética vazia e sem público.

 

 

Texto escrito por Matheuz Catrinck (@mcatrinck) e Janderson Toth.

Escrito por Janderson Toth

Sou o Janderson, 25 anos, graduando em Estudos de Mídia/UFF e pesquisador em análise de dados na Diretoria de Análises de Políticas Públicas da FGV(DAPP). Vivo fazendo tutorias, me perco nos animes e meu super-herói favorito é o John Constantine. Sou igual a um Pokémon: cada dia evoluindo mais!